#MaisFácil
A eleição de Leo não foi uma vitória política tradicional, foi um vídeo viral que saiu do controlo. O seu slogan de campanha cabia numa hashtag: #MaisFácil. Não havia programa eleitoral, apenas uma lista de intenções coloridas partilhadas em ecrãs de telemóvel. Quando os jornalistas lhe perguntavam como tencionava resolver a crise da habitação ou o défice público, Leo ria-se, ajeitava o casaco sem gravata e dizia: "Com imaginação. Vocês pensam demasiado. A malta quer é viver."
E a malta aplaudiu.
Clara acompanhou a tomada de posse pela televisão do seu gabinete na universidade, onde dava aulas de Ciência Política. Viu o novo Presidente assinar o primeiro decreto governamental: a abolição dos impostos sobre o entretenimento e a redução da semana de trabalho para três dias, sem qualquer estudo de impacto económico. "Para quê planear o futuro se podemos aproveitar o presente?", declarou Leo para as câmaras. O país foi à loucura. Houve festas nas ruas durante uma semana.
Os primeiros meses foram uma lua de mel de infantilidade institucional. As decisões ministeriais passaram a ser tomadas através de sondagens numa aplicação móvel do governo. "Devemos investir os fundos europeus num novo hospital ou num festival de verão gratuito e épico de um mês?" O festival ganhou com 82% dos votos.
Quando Clara e outros académicos assinaram uma carta aberta a alertar para o colapso iminente das infraestruturas básicas e para a rutura dos cofres do Estado, a resposta do governo foi imediata. Mas não foi uma resposta técnica. Foi um meme.
O gabinete de comunicação de Leo publicou uma montagem onde as caras dos professores universitários apareciam em corpos de dinossauros, acompanhada da legenda: "Os Velhos do Restelo não querem que te divirtas". Foi o suficiente. Naquela mesma noite, a caixa de correio de Clara encheu-se de insultos. O debate público não tinha sido vencido com argumentos; tinha sido esmagado pelo riso trocista de milhões de pessoas que não queriam ouvir más notícias.
Foi assim que a segunda fase do mandato começou. A médio prazo, a realidade, que nunca pede licença para entrar, bateu à porta.
Passado um ano, o dinheiro acabou. Sem receita fiscal suficiente e com os serviços públicos paralisados pela semana de três dias, o lixo começou a acumular-se nas ruas. Os hospitais, sem investimento, começaram a fechar urgências. A inflação disparou, tornando o pão e o leite artigos de luxo.
Mas Leo não amadureceu com a crise. Em vez de recuar, dobrou a aposta no seu discurso fácil. Num direto nas redes sociais, com um tom de vítima incompreendida, anunciou quem eram os verdadeiros culpados: os "sabotadores do sistema". Os intelectuais. Os jornalistas independentes. Os economistas com as suas folhas de cálculo.
"Eles não suportam ver o povo feliz," disse Leo, olhando fixamente para a câmara do telemóvel. "Estão a esconder os recursos. Estão a espalhar o pessimismo crónico para nos derrubar."
A partir daí, a captura do poder foi rápida e cirúrgica. Não precisou de tanques nas ruas nem de militares armados. Leo usou a própria lei para calar quem pensava. Aprovou o "Decreto da Harmonia Nacional", que criminalizava a difusão de "dados alarmistas que perturbassem a paz social".
Os telejornais que mostravam as filas para os bancos alimentares perderam as licenças de emissão. A universidade de Clara foi alvo de uma reestruturação estatal; o seu departamento foi encerrado por ser considerado um "núcleo de negatividade tóxica". Colegas seus foram forçados a demitir-se ou optaram por sair do país. A massa crítica — os especialistas, os analistas, os cépticos de serviço — foi sendo lentamente apagada do espaço público, substituída por influenciadores digitais e comentadores que apenas aplaudiam a narrativa oficial.
Clara guardou os últimos livros nas caixas de cartão. Ia partir para o estrangeiro no dia seguinte. O país estava agora entregue a crianças com poder absoluto, incapazes de lidar com a frustração e dispostas a destruir o tabuleiro sempre que perdiam o jogo.
Enquanto fechava a porta do apartamento, a eletricidade falhou, mergulhando o bairro inteiro na escuridão. Era o terceiro apagão da semana, resultado da falta de manutenção da rede elétrica. Mas, lá fora, no fim da rua, ouvia-se o barulho de uma multidão. Estavam a entoar o nome de Leo, iluminados apenas pelas luzes dos ecrãs dos telemóveis, celebrando o facto de o Presidente ter acabado de prometer, num tweet, que a luz seria gratuita para sempre, assim que descobrissem como a voltar a ligar.