O Guião que não Escrevi

Ela acordou com o som do despertador, mas não se mexeu. Ficou ali, de olhos abertos, a olhar para o tecto branco. O tecto era uma página em branco, e ela era uma frase que ainda não tinha sido escrita. Todos os dias eram assim. Acordar, vestir a personagem, sair para o palco. O mundo pedia-lhe que fosse algo: eficiente, simpática, competente. Ela representava bem. Tinha o sorriso ensaiado, o tom de voz certo, a resposta pronta. Mas, por dentro, sentia-se como uma estátua a que tinham dado corda. Andava, falava, ria, mas o motor era só hábito.

Conheceu-o num dia em que a chuva teimava em não cair. Estava numa esplanada, a beber um café que já estava frio, a olhar para as pessoas como se fossem peixes num aquário. Ele sentou-se na mesa ao lado, sem pedir licença, e disse:

— Sabes, acho que estamos todos a representar uma peça de que ninguém escreveu o guião.

Ela riu-se. Não por achar piada, mas por ser a primeira vez que alguém dizia em voz alta o que ela sentia em silêncio. Ele não era bonito, nem tinha uma voz especial. Mas tinha qualquer coisa que a desarmava. Não usava máscara. Ou, se usava, era tão transparente que ela conseguia ver o rosto por baixo.

Começaram a encontrar-se. Não em dates de novela, com velas e flores. Encontravam-se em sítios banais: num supermercado, a escolher a mesma marca de iogurte; num banco de jardim, a ver os pombos; num autocarro, a caminho de lado nenhum. E, nesses sítios, algo estranho acontecia. Quando ele estava por perto, as amarras invisíveis que a prendiam ao guião da vida começavam a soltar-se.

Ela deixou de sentir a necessidade de ser interessante. Podia ser só ela: a que se calava, a que se irritava com pequenas coisas, a que tinha medo do escuro e do futuro. E ele não fugia. Pelo contrário, parecia encontrar nela uma verdade que ela própria desconhecia.

Uma noite, sentados na cozinha, a comer cereais à luz do frigorífico, ela perguntou-lhe:

— O que é que te faz continuar?

Ele pensou, mastigou, e respondeu:

— O facto de não haver uma resposta única. E de, mesmo assim, valer a pena a pergunta.

Naquela resposta, ela sentiu o chão a tremer. Não era a terra. Era a plataforma do palco. Estava a desmoronar-se. E, em vez de cair num vazio, ela caiu nos braços dele. E, nesse cair, percebeu que o amor não era uma solução para os problemas. O amor não pagava as contas, não curava a ansiedade, não resolvia o que estava mal no mundo. Mas era um estado de suspensão. Como flutuar no meio do oceano, sem medo de te afogares, porque sabes que há alguém a flutuar contigo.

Foi então que percebeu: o amor não é uma fuga. É uma lente. Através dele, o que antes era cinzento ganha cor. O que era pesado ganha leveza. O que era absurdo ganha poesia. Não porque o amor mude o mundo, mas porque muda a forma como o habitamos.

Ela continuou a ser a mesma pessoa. Teve os mesmos problemas, as mesmas dúvidas, os mesmos dias maus. Mas algo tinha mudado. Agora, cada gesto seu tinha uma intenção. Cada palavra que dizia era escolhida. Não porque tivesse de agradar, mas porque queria ser verdadeira.

O amor libertou-a da ideia de que tinha de ser perfeita. Libertou-a da necessidade de ter todas as respostas. Libertou-a da solidão de existir sem testemunha. E, nessa libertação, ela tocou qualquer coisa que se parecia com o divino. Não um deus sentado numa nuvem, mas uma centelha dentro dela. Uma certeza silenciosa de que, apesar de tudo, a vida justificava-se. Não pela razão, mas pela entrega.

Hoje, quando acorda, o tecto continua branco. Mas ela já não precisa de escrever uma frase. Ela é a frase. E, mesmo que ninguém a leia, ela sabe que faz sentido. Porque ele existe. E, porque ele existe, o mundo, com todas as suas falhas, é um lugar habitável.

O amor é isto: uma porta que se abre para dentro. E, quando entras, percebes que nunca estiveste tão fora de ti, e tão em casa, ao mesmo tempo.

PartilharBluesky